23/12/11

Um até breve neste final de ano

Ao final do seu quinto ano, o blog parece ter cumprido sua missão. Da empolgação inicial, quando as postagens eram diárias, chego ao final de 2011 com uma frequência que não justifica a sua existência.

Mas talvez mais do que isso, mais do que o número de postagens por mês, falta o que dizer. Não sei mais o que escrever neste espaço. Já fiz de críticas juvenis a longas reportagens. Ultimamente, me apego ao que leio/assisto, já sem muito entusiasmo.

Essa profusão de redes sociais me tirou, pelo menos neste diagnóstico sem exames, a vontade de continuar escrevendo. Não nos moldes atuais. Está tudo muito rápido, curto, tudo muito besta.

Falta a privacidade essencial para a saúde da mente, que vive a ver a vida encantada do Facebook e do Twitter. As coisas se confudem, e o blog foi vítima desse festival de felicidade que assola as redes. Parafraseando o movimento, cansei.

Confesso que não sei o que fazer. Olho as redes e fico a me perguntar o que estou fazendo lá. Há muito sendo escrito, na sua maioria de péssima qualidade, em 140 caracteres e em posts que revelam a vida essencialmente feliz das pessoas no Facebook.

O blog está perdido nessa multidão, e não quero ser mais um a propagar o "não dizer". Ficou sem proposta, sem perspectiva. O final de ano ajudou a decisão, que deveria ter sido tomada em 2010. Este ano foi o da agonia, do desvanecer diário.

O interromper está decidido. Resta saber se o blog volta em outro formato, única forma de sobreviver. Mas isso é decisão para 2012. Talvez demore.

Aos leitores que me acompanham há tempos, esses poucos fortes, agradeço a leitura. Quem sabe o Verbo Transitivo capte vocês em sua nova versão. Guarde o endereço, ele continuará ativo.

Bom final de ano a todos.

13/12/11

Uma viagem em cores

"Daytripper", dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, é uma HQ com rara sensibilidade e força poética. Os artistas, quadrinistas das edições de sábado da "Folha", criaram uma obra com envergadura poucas vezes vista nesse universo.

A poesia do livro se dilui em texto e ilustrações, numa história amparada em sonhos e reviravoltas. Brás de Oliva Domingos é um jornalista que escreve obituários, filho de um escritor consagrado e respeitado. Sonha em ser como o pai, mas adia constantemente seu rumo, enquanto perfila o fim de desconhecidos diariamente nas páginas do jornal.
Moon e Bá então abrem a caixa para contar uma história em que as possibilidades da vida se apresentam, para imaginar como seria a vida de Brás, como decisões podem mudar o curso das coisas, com um lirismo que escapa da pieguice com folga.

Nas suas 250 páginas, o leitor vai se deparar não com arrependimentos, mas com o vislumbre do que o acaso e as decisões podem fazer com a vida.

Mais como "Daytripper" no blog
"Asterios Polyp"
"Três sombras"
"Retalhos"

11/12/11

O cinema como Scorsese o vê

"Conversas com Scorsese" é uma deliciosa viagem não somente ao cinema do diretor norte-americano, mas também à arte de forma ampla. Entrevistado pelo crítico e documentarista Richard Schickel, Scorsese abre sua verve para falar de técnicas, influências, cultura, tradições.

Diferentemente de "Conversas com Woody Allen", em que Eric Lax conduz a conversa por temas, este é conduzido pela cinebiografia do diretor. Cada filme de Scorsese ganha um capítulo (de "Sexy e marginal" a "Ilha do medo"), para falar de roteiro, fotografia, atores e bastidores. Além desses, há capítulos dedicados atores, estúdios, música e John Ford.

A memória e a cultura cinematográfica de ambos envolve o leitor e força a colocar ao lado uma caderneta para anotar filmes citados. Scorsese não repele nenhum tema, nenhuma pergunta. É detalhista e vai buscar histórias para deixar tudo detalhado. Então, lemos bastidores de filmagens que raramente uma publicação revela.

É uma pequena aula de cinema, enriquecida pelo talento de Scorsese e Schickel.

De Scorsese, estes são meus favoritos, cinco ficções e um documentário:
  • "Alice não mora mais aqui"
  • "Taxi driver"
  • "Touro indomável"
  • "Depois de horas"
  • "Gangues de Nova York"
  • "No directions home: Bob Dylan"
Trecho
Então, nesse dia de manhã, eu estava no set e a rua estava viva - havia toda aquela gente correndo de um lado para outro, e era um dia muito, muito quente. De repente, alguém aparece do meu lado e diz" "Tenho umas ideias, umas ideias!" Era Jack (risos). E isso virou a cena que se vê no filme, na qual, basicamente, ele cheira o conhaque. E ele cheira Leo e diz: "Sinto cheiro de rato". Aí ele aponta a arma para Leo, sem que Leo soubesse. E sem eu saber! Eu não sabia se ela ia atirar ou não. Mesmo usando balas de pólvora seca, é muito perigoso, e eu não sabia bem o que ia acontecer.
Esse tipo de coisa leva a outro nível de realidade. Quando ele encosta a arma daquele jeito, você vê a cara do Leo e sabe que aquela é a reação pura, nada montado, nada cortado. Eu não sabia para onde a cena ia depois. Porque Leo era o reto e ele tinha de sair daquela sala.
Mas como ele ia fazer isso? Eu estava prendendo a respiração. E aí ele faz aquilo, convence Jack. Como ator, Jack sentiu o desespero de Leo, viu isso nos olhos dele e o jeito com perguntou: "Sabe, Frank, quantos caras por aí querem te pegar?". Isso pôs Jack nos trilhos outra vez.
(sobre "Os infiltrados")

04/12/11

Sócrates, 1954-2011

Numa época em que o Palmeiras não tinha ninguém que merecesse qualquer lembrança, seu maior rival tinha Sócrates. Foi daqueles jogadores que fazem rivalidade perder sentido, ainda que para garotos de 10, 11 anos.

No Corinthians, só me lembro de alguns passes de calcanhar e o braço erguido, punho cerrado, para celebrar algum gol.

A memória é mais viva na Copa de 1982. Particularmente dois jogos, o da estreia, contra a União Soviética, e o derradeiro, contra a Itália.

No primeiro, fez um gol antológico para empatar o jogo e deixar espaço para Éder virar já no final. No segundo, fez outro gol de empate, após passe magistral de Zico, gol que não ajudou o Brasil a avançar.

Sua Democracia Corintiana só fez sentido real para mim quando ele já havia deixado o time. Era criança demais para entender o que acontecia a poucos quilômetros de casa - morava muito perto do Parque São Jorge.

Era alguém de posição, articulado, que não dispensava prazeres. Raro de se ver, ainda mais num tempo de tanta vigilância - antes e agora, com motivos e formas diferentes. No campo, jogava de forma elegante, preciso, inteligente. Nada se desperdiçava aos seus pés, parceiro ideal para Zico, num meio-campo que talvez a seleção nunca mais veja.

Num momento em que o Brasil precisa tanto de pessoas com postura e voz para tratar do que vai acontecer em 2014, sua perda é irreparável. Vai fazer falta.

03/12/11

Tributo a um professor

Em outubro de 1996, estudante de jornalismo e repórter da "Folha da Tarde", recebi um convite. Ir para Belo Horizonte para trabalhar em um novo jornal, que seria lançado dali a um mês. A equipe estava sendo formada, restavam algumas vagas.

Minha primeira editora na "FT" iria para BH em breve, para trabalhar nos simulados, junto com seu marido. Ela me indicou e a Redação do jornal me convidou.

Então, seu marido, que ocuparia posição de chefia no jornal, me chamou para conversar. Nunca tinha encontrado com ele, mesmo depois dos quase dois anos de convívio com sua mulher. Era um mistério, uma voz grave ouvida algumas vezes no telefone, uma cria da "Folha" da era das Diretas-Já, alguém que fez por onde na Barão de Limeira.

Então, num final de tarde, fui até o apartamento da Augusta. Não me lembro da conversa, de como foi conduzida, dos assuntos. Lembro apenas de uma pergunta, pois sua resposta me acompanhou em várias histórias por ele contada anos depois.

Ele me perguntara que livro eu estava lendo. "O Aleph", de Borges. Disse ele que a resposta foi decisiva para me contratar. Não fui naquele outubro, pois perderia o ano na faculdade. Fiquei com receio de perder a vaga, mas no dia 1º de janeiro de 1997 a mulher dele me ligou e me disse que a Redação me esperava. Abandonei o curso no quarto ano e fui para BH, de onde voltei para SP quase oito anos depois.

Minha credencial em BH era "O Aleph", repetida à exaustão por ele. Ele que era obsessivo. Fui para trabalhar diretamente com ele, na Primeira Página do jornal. Foi um salto no meu aprendizado. Em pouco mais de um mês, aprendi muito mais com ele ali ao meu lado, me orientando na edição da página mais nobre do jornal, do que nos três anos de faculdade.

Depois, a Primeira ficou pequena para ele, algo mais do que esperado. Chefiou a Redação, me tirou da Primeira e me levou para Esportes, para ser editor. Foram anos de intenso jornalismo. Cresci de forma exponencial. Ele saiu e voltou. Em ambas as passagens, foi mais do que uma rota certa, era alguém que praticava o jornalismo com vigor, inteligência, perspicácia. Era aberto a ousadias e ao confronto, algo tão raro em tempo de relações insípidas.

Tivemos longuíssimas conversas madrugada adentro, sobre tudo, tudo. Me emprestou "A vida - Modo de usar", de Georges Perec, que não me entusiasmou - ele dizia que era um dos seus pilares. Me deu de presente uma coletânea do Pete Townshend. Assistimos ao primeiro do show do U2 no Brasil, em 1998, na pista do Morumbi, mas longe um do outro. Tinha manias e vícios que o caracterizavam, da mesma forma como seus sonhos.

 Havia muitos anos não falava com ele. Não pude me despedir dele. Ficará para sempre na memória como alguém que me ensinou muito, que me abriu caminhos, que me ajudou, alguém cuja presença marcava na pele. Tenho certeza de que fiz menos por ele do que ele para mim. Mas essa sensação a gente sempre tem quando alguém vai embora. Se esse alguém for um cara como ele, essa sensação é imensa.

30/11/11

O sonho precede a vingança

Começa com uma cena de crime. Um padre é assassinado no povoado de Tres Perdices, no que poderia se chamar de Argentina profunda. Ninguém entende.

É o início de "A quem de direito", romance de Martín Caparrós, que capta um momento da história argentina para revivê-lo anos depois.

Carlos era um militante na época selvagem da ditadura militar (1976-1983), que perdeu a mulher grávida e o filho, provavelmente em uma sessão de tortura. Anos depois, solitário, sem perspectivas e doente, vai reviver aquele período e, despertado por ex-companheiros, partir para a busca da verdade sobre a morte da mulher.

Caparrós traça um perfil quase melancólico da geração que enfrentou os militares, por motivos ingênuos, idealistas ou egoístas - ele não toma partido, apenas aponta para onde aquela geração caminhou na época, quais eram as motivações e suas consequências.

Carlos encontra ex-militares, para descobrir que talvez haja vítimas além dos civis. Caparrós não trata de quem morreu, mas sim de quem está vivo e tem que conviver com o que o passado gerou. Não há acerto de contas. A ficção que Caparrós criou poderia muito bem ser real, e talvez seja. Seus personagens são palpáveis, assim como seus dramas e dilemas.

Dessa forma, "A quem de direito" surge como um daqueles livros fundamentais para entender não uma geração, mas sentimentos como vingança e raiva, tendo como pano de fundo a história. O tom melancólico que permeia o protagonista revela a sensação de sonho perdido, por mais ingênuo que possa soar. Para Caparrós, não importa, era o que aqueles jovens pensavam e ansiavam.

Trecho
Mas acho que vê-la tão violenta, tão segura, era uma coisa que me excitava. Gostava - acima de tudo - que ela fosse capaz de afirmações tão contundentes, de uma solidez inverossímil. Eu não conseguia mais: já fizera muito isso, pagara um preço alto demais. Tentei dizer a ela que não fora só a derrota: que fora sobretudo o desaparecimento das ideis pelas quais lutávamos. Que agora os glorificadores daqueles anos querem reciclar e revender aquelas ideias transformadoras em postulados gerais - a justiça, a igualdade, a democracia, os famosos direitos humanos -, mas nós não lutávamos por essas coisas: lutávamos porque estávamos convencidos de que só seria preciso um empurrãozinho para que o socialismo - o desaparecimento dos ricos, o governo dos trabalhadores, tudo para todos - se instalasse, que era coisa de dias, de uns poucos anos no máximo. Estávamos convencidos de que o amanhecer estava logo ali: era noite e lambuzávamos os braços com filtro solar.

27/11/11

Ao sabor da trilha

Longe das prateleiras de CDs nas lojas havia muito tempo, recentemente voltei a elas por conta de alguns lançamentos. Confesso que senti uma pequena abstinência, que a internet, por mais ampla e irrestrita que possa ser, não consegue aplacar.

Estas são as novas aquisições.

Nunca tinha ouvido falar de Sabrina Starke. É lançamento exclusivo da Livraria Cultura. Então, coloquei para ouvir num totem da loja e nem precisei chegar à quarta música. Soul, folk e pop de primeira qualidade, um trabalho interessante, que se aproxima do CD "The Sea", de Corinne Bailey Rae.

Wynton Marsalis está investindo em parcerias. Começou com o excelente "Two men with the blues", com Willie Nelson, álbum em que a dupla revisita clássicos como "Basin street blues" e "Georgia on my mind". A parceria continuou para homenagear Ray Charles em "Here we go again", com Norah Jones nos vocais - CD imperdível. Agora, Marsali se une a Eric Clapton para lançar "Play the blues - Live from Jazz at Lincoln Center". Não sou exatamente um fã de Clapton, mas o CD é nada menos do que sensacional. Temas clássicos do blues ganham versão jazzística, pontuada pela guitarra de Clapton. "Layla", "Joe Turner's blues" e "Corrine, Corrina", esta última com a participação de Taj Mahal, já valem o disco.

Ainda no blues, comprei "State of grace", do trio The Holmes Brothers. O lançamento faz parte do pacote da Alligator, selo dedicado ao gênero e plataforma para nomes como Koko Taylor. Li sobre o disco no blog de Carlos Calado, que analisa os discos recém-lançados no Brasil. O trio revisita Hank Williams e John Fogerty, entre canções próprias, com suingue e, por que não, alma. Para mim, bastaria a versão para "(What's so funny 'bout) Peace, love and understanding?", imbatível na voz de Elvis Costello e que com os Holmes ganha uma interpretação quase triste.

E o Coldplay, que fez um belo show no Rock in Rio, com as músicas novas do CD "Myolo Xyloto", mostra que ainda não alcançou maturidade, mas está em evolução constante. Cada lançamento é sempre melhor do que o trabalho anterior - este supera "Viva la vida", que havia superado "X&Y" e por aí vai. Música pop de qualidade, arranjos criativos, melodias contagiantes fazem do álbum um dos bons lançamentos do ano.

A banda Dap-Kings se consagrou com Amy Winehouse, mas sua casa verdadeira é com esta diva da soul, Sharon Jones. Estrela tardia, faz da sua música um verdadeiro caldeirão da black music. Soul, funk, blues, tudo misturado, com uma sonoridade setentista e amparado com a voz de Sharon, que canta mais próximo de Aretha Franklin do que qualquer outra cantora já conseguiu. Seu disco "I learned the hard way", do ano passado mas que saiu agora no Brasil é a essência desse caldeirão - o anterior, "100 days, 100 nights", focava mais no funk atual. E "Soul time", ainda inédito no Brasil, mas disponível na banda larga, mostra uma cantora na altura dos clássicos da soul. Dois discos de arrebentar, trilha sonora ideal para uma festa de fim de ano.

23/11/11

A cidade que luta

No ano passado, li "A suíte elefanta", ficção de Paul Theroux que se passa na Índia. São três novelas que mergulham na cultura indiana, suportadas pela prosa envolvente do escritor.

E fiquei com um gosto na boca, de querer conhecer mais a Índia. Até folheei alguns Salman Rushdie, mas ainda não trouxe nenhum para casa.

Então, a Companhia das Letras lançou "Bombaim - Cidade Máxima", do jornalista Suketu Mehta, uma longa reportagem sobre a cidade (580 páginas).

Longe da Índia por quase 20 anos, ele narra sua volta ao país natal e tenta entender as mudanças enquanto enfrenta a multidão, o caos estrutural, a pobreza e miséria. Vai encontrar com tipos os mais diversos, para compor um painel da cidade, herdeira de uma tradição britânica, mas que precisa conviver com dilemas do Terceiro Mundo, com um descontrole natal e culturas díspares internas.

Mehta mostrar como uma cidade luta para sobreviver, em meio a tantos obstáculos. Emerge dessa obra de raro fôlego uma metrópole viva, confusa e em constante combate. Para dar corpo a tudo isso, Mehta conta histórias, e impossível não achá-las na Índia.

20/11/11

A vida em quadrinhos

Dificilmente ambição consegue se harmonizar com fluência. Por vezes, autores se tornam prolixos, na tentativa de inovar, buscar algo ousado.

David Mazzucchelli conseguiu criar uma obra ambiciosa e factível para o leitor em "Asterios Polyp", HQ de primeira qualidade recém-lançada pela Quadrinhos na Cia.

O artista explora as possibilidades da linguagem dos quadrinhos, em traços, cores, vazios, com design por vezes tradicional, por outras puramente estético.

O melhor é que Mazzucchelli não esqueceu da história. Polyp é um arquiteto de 50 anos, arrogante, solitário, que perde a casa e suas coisas num incêndio. Embarca num ônibus e segue em viagem até o dinheiro que possui permite. Vai ser acolhido por uma família e viver a vida que lhe surge à frente.

O narrador, o gêmeo natimorto de Polyp, relembra a vida do irmão antes de cair na solidão, a relação com Hana, como começou e acabou. Essa viagem ao passado vai explicando no que Polyp se transformou aos 50 anos. Tocante. Do arquiteto que cria obras conceituais que nunca são construídas ao sarcástico andarilho, Polyp perde-se no contato com o mundo, e Mazzucchelli dá múltiplas formas a esses desencontros do seu protagonista.

Craig Thompson fez algo semelhante em "Retalhos", outra HQ excepcional. Obras com temática adulta, com trabalho gráfico impressionante e que provocam tanto quanto um romance.

No caso de "Asterios Polyp", a reflexão passa por relacionamentos e família, em como alguém pode ser engolido pela vida e não reagir. Um retrato poderoso.

18/11/11

A história da família

Marjane Satrapi é uma cronista de mão cheia. Transforma a história contemporânea do Irã em obras que questionam comportamentos, a política e as opções culturais.

O que a diferencia de tantos outros cronistas é o tom pessoal que ela dá às suas HQs. Sua já clássica "Persépolis" conta a história recente do Irã por meio da sua família.

Acabei de ler duas HQs de Marjane. De uma sentada só.

"Bordados" mostra como as mulheres vivem em meio aos homens e à cultura iraniana. Elas conversam enquanto os homens dormem - bordado é o equivalente ao tricô, à conversa cotidiana, como também significa o método de reconstrução do hímem de mulheres que precisam ser virgens para arrumar casamento.

As mulheres contam histórias de relacionamentos, em que surgem o preconceito e a repressão. Marjane mostra como as elas sonham e tentam superar desejos reprimidos. Sonham com um romance, o homem ideal enquanto são obrigadas a conviver com casamentos arranjados e mentiras.

É um retrato cruel, mas que Marjane transforma num bate-papo que acontece informalmente após o almoço. O leitor fica com a sensação de estar bordando com aquelas mulheres.
"Frango com ameixa" é uma volta à biografia de sua família como forma de contar a história do Irã. Nasser é um músico talentoso, tio da mãe de Marjane, que vê sua mulher quebrar seu instrumento após mais uma discussão.

Ele desiste de viver. Seus últimos oito dias são palco para que ele relembre sua vida, o que deixou para trás, suas opções, a relação familiar e como suas decisões o levaram até aquele ponto.

Triste, a crônica familiar de Marjane é sensível, esperta ao recortar essa história, comovente ao mostrar o declínio de Nasser. O traço de Marjane assim como suas soluções gráficas são das mais criativas. Poucas coisas me comoveram ultimamente como esta HQ.

15/11/11

A vez da paranoia

Ninguém precisa dizer que o mundo está amplamente conectado hoje. De todas as formas. E essa conexão plena e intensa acaba gerando um sentimento que também ninguém sabe onde vai dar. A paranoia anda de mãos dadas com essa globalização da comunicação.
E não é que um filme pipoca pode falar disso sem ser banal? "Contágio", do irregular Steven Soderbergh, é mais sobre o poder da comunicação do que um vírus mutante resultado de uma mistura de DNAs de morcego e porco - o tal MEV-1 - que coloca a população mundial em pânico.

O ponto zero surge numa mesa de cassino em Hong Kong, mas a proliferação é rápida demais, algo típico de um mundo que viaja muito e que peca, mesmo em países ricos, no quesito higiene.

Então, de lá, vamos para China, Japão e Estados Unidos. O vírus avança, enquanto cientistas tentam descobrir origem e cura.

Redes sociais entram em jogo, órgãos governamentais controlam a informação privilegiada, a mídia alternativa (blogs) mostra seus lados, ao cutucar o poder e ao ambicioná-lo, assim como a mídia tradicional, que despreza a notícia gerada pelo YouTube.

Não tem mocinho nem bandido. São todos bem reais, construídos de forma a não caricaturizar o roteiro. Lembra muito "E a vida continua", um documentário ficcionado sobre o surgimento da aids. Soderbergh não escolhe uma espinha dorsal, alterna cenários, assim como seu premiado "Traffic" - a fotografia azulada do núcleo que inicia a história de "Contágio", com Matt Damon, é semelhante à de Michael Douglas na produção anterior.

Sem escolher lado, mas também sem se aprofundar, "Contágio" aponta as fragilidades e como o mundo interconectado pode fazer uma história, verdadeira ou não, correr rapidamente. Assusta.

13/11/11

Retrato de uma época

"Rock Brasília" é daqueles documentários que teria tudo para atrair a gente que escutava rock nos anos 80 e até quem hoje, aos seus 15, 16, 17 anos, costuma ouvir e cantar coisas como Legião Urbana e Capital Inicial.

O diretor Vladimir Carvalho pretende contar a história da turma que incendiou Brasília e forçou a cidade a sair, ainda que em algumas quadras, da mesmice. Parte do núcleo Renato Russo-Fê Lemos-Flavio, que formou o Aborto Elétrico e depois daria vida ao Legião e Capital. São os que ganham mais tempo na tela, para detalhar como tudo começou e continuou. Carvalho busca ângulos pouco retratados, como conversar com os pais dos músicos. A história ganha tons de familiaridade, ao reduzir ícones de época a comuns.

Carvalho recupera boas imagens de arquivo, em fotos ou vídeos. Mas peca como entrevistador, ao se portar como Eduardo Coutinho, mas sem o perfil inquisidor deste. Surge como amigo ou condescendente, o que diminuiu o impacto das conversas.

Mas não do filme. Se aqueles garotos tinham alguma coisa, eram as histórias. E eles contam no documentário. Um trecho bacana é a viagem que Carvalho faz como Philippe Seabra, da Plebe Rude, para Patos de Minas, local do primeiro show da banda - onde o Legião também estrearia.

Acerta também ao narrar, quase passo a passo, o fatídico show do Legião em Brasília, em 1987, quando Renato Russo foi atacado no palco. Ele que é o ponto condutor do filme, como se fosse ele o biografado.
As músicas surgem como pano de fundo. Ainda que as bandas hoje tenham perdido relevância - alguém ainda ouve Capital Inicial? -, o filme é perfeito como documento histórico. Coisa rara, os defeitos funcionam quando contextualizados - afinal, para retratar a época do faça-você-mesmo, nada melhor do que imperfeições.

Só não entendi uma coisa. Que diabos o Caetano Veloso está fazendo no filme? Só porque ele comandou o "Chico & Caetano" e em um dos programas convidou o Legião? Por que a necessidade de obter o ok de Caetano?

08/11/11

Para salvar o ano

Não sou exatamente um fã do cinema de Pedro Almodóvar, mas sou um espectador assíduo de seus filmes. E assíduo significa ter assistido a todos os seus filmes desde "Pepi, Luci, Bom" (1980). Não sei explicar o motivo, talvez influenciado por uma amiga assumidamente fanática pela obra do espanhol.

E então ir ao cinema para ver um filme dele se tornou rotina. Me acostumei com seus temas, obsessões e atrizes - Carmen Maura, Rossy de Palma, Victoria Abril, Penélope Cruz.

Para manter a tradição, fui ver "A pele que habito". Talvez um dos seus melhores filmes dos últimos dez anos. Revelar qualquer coisa da trama estragaria a sessão. Nem o argumento vale a pena citar.

Almodóvar faz uma mistura de terror B, com suspense à la Brian de Palma - quanto este consegue se afastar de Hitchcock. O filme é fluente, sexy em várias de suas cenas, com estrutura para manter o espectador preso até o final das suas 2h de exibição - e surpreendê-lo a cada 30 minutos sem forçar a barra.
Antonio Banderas volta ao círculo de Almodóvar após 20 anos e constroi um médico canastrão sem exageros. E o diretor espanhol entrega um fetiche, a atriz Elena Anaya, lindamente fotografada, uma beleza daquelas que incomoda. "A pele que habito" é um filme que ajuda a salvar um ano especialmente fraco nos cinemas.

07/11/11

Um comunista cansado

Fernando Morais tem a cara do comunista típico - barbudo, com o charuto sempre a postos. Mas só a cara. Assim como boa parte dos comunistas, nada como uma vida boa, cercada de mimos do capitalismo. Nada contra, ideologias existem para serem contestadas - no Brasil, por exemplo, Paulo Skaff, presidente da Fiesp, não queria ser candidato por um partido socialista? E o ex-ministro comunista do Esporte, o que dizer mais? Tudo muito confuso, sem fronteiras.

Morais escreveu "A ilha" e mantém relacionamento com Fidel Castro. Mas ele também é o autor de "Chatô", "Corações sujos" e "O mago". Então, nada mais heterogêneo e longe de ideologias.

Seu "Os últimos soldados da Guerra Fria" chegou com a marca "comunista" - seja no vermelho da capa, seja no tema do livro-reportagem. Muitos foram além e disseram que em partes do livro há propaganda castrista.

Bem, nem tanto à ilha nem tanto a Miami.

O tema é saboroso já como descrito na capa: "A história dos agentes secretos infiltrados por Cuba em organizações de extrema direita nos Estados Unidos". A chamada Rede Vespa foi uma estratégia cubana para acabar com os ataques de milícias fanáticas e anticastristas a Cuba, recém-aberta então ao turismo nos anos 90 - terrorismo?

Fidel mandou a Miami, de diversas formas, um grupo de 14 cubanos para que eles se infiltrassem nas organizações fanáticas. Um jogo de espiões de primeira, que resultou em atentados evitados, uma investigação do FBI e um empurra-empurra entre EUA e Cuba.

Mais do que uma história mirabolante, o livro relata como aquelas pessoas mudaram de vida e deixaram para trás suas famílias. O lado pessoal, que Morais conseguiu com dezenas de entrevistas, num trabalho jornalístico de primeira, faz com que o livro se torne mais do que um libelo cubano - não li nada muito propagandístico, nada muito parcial de Morais, me pareceu uma reportagem até distante de lados.

Se a história é boa - há fotos de época, os depoimentos são raros, há bastidores -, como num bom filme de espionagem, já não se pode dizer que o livro funciona. A prosa de Morais se revela cansada, chata da metade para frente, enfadonha em muitos trechos.

Recentemente, li sua coletânea de reportagens especiais, "Cem quilos de ouro", este sim um exemplo de texto fluente e equilibrado, criativo e instigante. Aqui, Morais ligou no automático e escreveu mais um livro sobre Cuba. Pena, o material que tinha em mãos era ouro puro.

Imagino o que Gay Talese faria com essa história...

02/11/11

Um rei desnudado

Não sou afeito a esportes como boxe ou a nova mania, o tal do MMA - menos ainda com este, uma das coisas mais cruéis que já vi, algo como uma briga de selvagens, como se a morte fosse o objetivo.

Cheguei a acompanhar lutas de Mike Tyson, mais pelo fenômeno do que por interesse esportivo.

Mas o que David Remnick fez com Muhammad Ali me deu a sensação de que sou um fã de boxe. A biografia "O rei do mundo" é excepcional. Reeditado como edição de bolso, na coleção Jornalismo Literário, o livro capta um momento dos Estados Unidos para contar a história daquele que é considerado o maior lutador de todos os tempos.

Remnick é um jornalista de primeira. Editor da "The New Yorker", escreveu um livro de perfis também sensacional, "Dentro da floresta". Sua prosa é limpa, elegante, o texto se prende a detalhes de um jeito que não o torna enfadonho, pelo contrário, estimula sua leitura de forma quase compulsiva.

Para contar a vida de Ali, do momento em que surge para o boxe profissional até a conquista do título mundial, Remnick recua até os campeões anteriores - Floyd Patterson e Sonny Liston. Passa com profundidade pela luta contra o racismo nos Estados Unidos preconceituosos. Investiga a disputa que ocorreu na Nação do Islã, que levaria Cassius Clay a mudar de nome, uma disputa que envolveu os principais líderes - Malcolm X entre eles.

Religião, identidade cultural, máfia, bastidores, Remnick traça um painel de época primoroso. Quem pensa que o livro vai contar a história de um boxeador apenas engana-se. Mais do que isso, "O rei do mundo" biografa um homem controverso, que buscava sua identidade em meio a um período propício ao confronto.

Nada menos que essencial.

30/10/11

Uma saída

Pensar em cinema brasileiro hoje é ver uma extensão da TV na tela grande. Sempre os mesmos atores, um burocrático roteiro que repete fórmulas de novelas e séries, direção esquemática, tudo girando em falso.

Eis então que dessa mesmice surge algo como "O palhaço", um filme que tenta a todo custo escapar desse caldeirão monótomo do cinema brasileiro. Com exceção de Paulo José, o elenco principal é desconhecido do grande público. E Selton Mello, diretor e protagonista, faz uso de nomes consagrados na arte popular em pequenas pontas - Ferrugem e Zé Bonitinho, por exemplo.

Só isso já seria um alívio. Claro, antes do filme, temos que ver todas as empresas colaboradoras subirem nos créditos. Selton Mello procura então realizar um filme popular, uma comédia que foge do padrão de mocinhos, pares mágicos e romance açucarado.

Selton e Paulo José são os palhaços Pangaré e Puro Sangue, filho e pai que também comandam o circo Esperança, trupe que viaja pelo interior do país em pequenas cidades. Em nenhum momento o diretor deixa claro qual a época, mas dá dicas de que estamos nos anos 70, meio da ditadura.

A dupla faz rir com seus números, mas tem que administrar o circo, seus problemas, a falta de dinheiro, a politicagem - os prefeitos querem ser paparicados a cada apresentação - e a desolação que é viajar pelo interior quase fantasma do país.

Selton Mello saca dessa premissa boas passagens, como o jantar na casa de um prefeito, sua virada de mesa ao se tornar um cidadão comum, que precisa tirar uma carteira de identidade para conseguir um emprego. Sempre sensível, faz rir e emociona. E sua atuação, contida, sem exageros, revela um personagem a ponto de uma explosão, tudo o que talvez Luis Fernando Guimarães sonhasse em fazer - emocionar sem gerar gargalhadas.
O elenco de apoio comparece com graça. Os atores que fazem parte do circo dão show à parte, como se fossem curtos esquetes a cada entrada em cena.

O único talvez pesa sobre a atuação de Paulo José. Seu olhar caído até funciona para o papel, mas o desempenho revela um ator cansado, como se o personagem fosse uma homenagem. Longe de suportar o ritmo das cenas, sua voz surge fraca e seus movimentos, num papel um tanto físico, revelam um ator esgotado.

É uma clara evolução em relação ao seu filme de estreia, "Feliz Natal". Deixou de lado os excessos e se concentrou em contar a história. Pode ser uma colcha de metáforas - o ator que recolhe dinheiro, que precisa administrar a carreira, as chances raras, o patrocínio político e os favores decorrentes -, mas ainda assim consegue colocar uma assinatura.

29/10/11

Dylan, 70

A "Rolling Stone" deste mês elegeu as 70 melhores canções de Bob Dylan, como parte das comemorações dos 70 ano do compositor.

Listas são sempre controversas, ainda mais quando mergulham numa obra vasta como a de Dylan. Os curadores são nomes respeitados, estudiosos e conhecedores do catálogo e da vida do músico.

E listas são sempre um motivo para ler, folhear, imaginar o que se tem e o que falta, gostar ou não, criticar.
Nem me atrevo a fazer uma lista de 70 músicas. Mas me permito elegar as minhas dez. Sem ordem de preferência.
  • "Like a Rolling Stone"
  • "I Want You"
  • "Mr. Tambourine Man"
  • "Just Like a Woman"
  • "It's All Over Now, Baby Blue"
  • "Girl From a North Country"
  • "Don't Think Twice, It's All Right"
  • "All Along the Watchtower"
  • "If You See Her, Say Hello"
  • "Love Minus Zero/No Limit"

28/10/11

O fim como triunfo

O fim já foi decretado, mas o R.E.M. ainda prepara uma coletânea com três músicas inéditas antes de se retirar em definitivo.

O clipe para "We all go back to where we belong", uma das músicas novas que irá aparecer na coletânea "Part lies, part heart, part truth, part garbage: 1982-2011", é arrebatador.

A câmera não muda o enquadramento. Foca na atriz Kirsten Dunst, que muda a fisionomia ao longo da canção. Dirigido por Michael Stipe, o vídeo tem resultado perturbador. Eu votaria facilmente como o melhor clipe já produzido desde que a MTV surgiu em meados dos anos 80 nos Estados Unidos. Há uma versão com o poeta John Giorno, igualmente memorável.

Enquanto Stipe destila versos que declaram o amor a um parceiro - "I can taste the ocean on your skin, that is where all begins", Kirsten vai reagindo ao que ouve. Às vezes envergonhada, às vezes sonhadora, apaixonada. São 3min39 que encantam e de certa forma fazem o espectador se apaixonar pela atriz - eu pelo menos me apaixonei.

É muito mais do que uma despedida digna. É triunfal.

26/10/11

“Holly era uma jovem que fez seu próprio caminho”

Na entrevista a seguir, o jornalista e escritor Sam Wasson fala sobre o livro “Quinta Avenida, 5 da Manhã”, a herança fashion de “Bonequinha de Luxo” e os bastidores do filme. Wasson também é biógrafo de Blake Edwards, diretor da adaptação do livro de Truman Capote.

O que faz de "Bonequinha de Luxo" um ícone de moda e comportamento das mulheres?
As razões são várias e complicadas, eu não tenho certeza de que posso explicar em pouco espaço. “Bonequinha de Luxo” foi a primeira ocorrência de uma garota moralmente estável e solteira. Antes de Audrey Hepburn ter interpretado Holly Golightly, as garotas de Hollywood não poderiam viver na cidade sem conseguir um marido até o final do filme, mas Holly se diverte por estar por conta própria e não é punida por isso. Quanto à moda, foi uma combinação de Audrey, Hubert de Givenchy e o uso inteligente de um pequeno vestido preto para contar o que não poderia ser dito - ou seja, aquela garota tinha experiência. A moda disse isso.

O filme deixou sua marca no imaginário: a música tema ("Moon River"), o vestido de Audrey Hepburn, sua maneira de ser, a vitrine de Tiffany. Como você avalia o filme e seu legado depois de 50 anos?
Naturalmente, o filme não parece tão progressivo hoje quanto na época do lançamento. Meio século depois, Holly parece ser apenas outra garota carente e perdida na grande cidade. Na verdade, ela era mais do que isso - uma jovem que fez o seu próprio caminho. Alguma coisa daquele período se perdeu para os espectadores de hoje, e essa foi uma das razões pelas quais eu queria escrever o livro, para restaurar parte do contexto histórico e dar ao público uma nova visão por tudo o que os cineastas tiveram de suportar.

Você escreveu dois livros em que Blake Edwards é o personagem central. Onde está a mão do diretor em "Bonequinha de Luxo"?
Esta é uma grande questão. Edwards, que era um jovem diretor em 1960, foi prudente em recuar e deixar Audrey, Henry Mancini, e Givenchy assumirem. De um modo geral, é seu filme. Mas existem toques inegáveis ao longo do caminho, o mais memorável é a cena da festa, que tem a digital de Edwards por toda a parte. E também a elegância brilhante de Nova York – eu atribuo isso a Edwards. Ele amava superfícies, e Manhattan ofereceu-lhe um grande número. Mais uma coisa: como eu escrevo no livro, o final do filme que sobreviveu foi realmente escrito por Blake Edwards. Ele decidiu que precisava de um tradicional "final feliz" e jogou fora (o que desapontou e muito o roteirista George Axelrod) o aceno pessimista, mais de acordo com o romance de Capote.

* Entrevista feita para a revista "Correio Moda"

O filme que criou a mulher moderna

Imagine a cena. Marilyn Monroe, com um vestido preto, desce do táxi às 5h, na Quinta Avenida, em Nova York. Paga o motorista e anda poucos metros, até parar em frente a uma vitrine da Tiffany’s. Toma um gole de café e come um croissant. Namora as joias e em seguida caminha pela avenida.

A cena existiu de fato, mas quem estava naquele vestido não era a maior sex symbol de Hollywood. A improvável Audrey Hepburn foi a escolhida para encarnar Holly Goligthly, a personagem central de “Bonequinha de Luxo” (Breakfast at Tiffany’s), filme baseado no livro homônimo de Truman Capote que completa 50 anos.

Marylin era a atriz que Capote queria para interpretar sua Holly, uma mulher que vive por conta própria na Nova York do início dos anos 60. Os produtores e o diretor Blake Edwards optaram pela beleza clássica de Audrey, um perfil mais frágil, com apelo sexual menos óbvio, longe da ingenuidade e da explosão sensual da loira.

O filme se tornou um ícone fashion e um divisor de águas para a mulher moderna. O escritor e jornalista Sam Wasson foi investigar toda a aura que existe sobre a produção, no livro “Quinta Avenida, 5 da Manhã”. Com o subtítulo “Audrey Hepburn, Bonequinha de Luxo e o Surgimento da Mulher Moderna”, Wasson relata como o filme foi concebido, transformou-se na pré-produção e nas filmagens e legou uma nova imagem à mulher. Para Wasson, o filme com Marilyn seria “menos revolucionário”.

Livro e filme caminham por rotas diferentes. Capote, ao flagrar um instantâneo da sociedade nova-iorquina da época, contou a história de uma garota de programa de luxo, que tem um gato sem nome e se encanta por um gay. A censura, que vivia resquícios da caça às bruxas decretada pelo diretor do FBI, J. Edgar Hoover, não permitiria tal enredo, tampouco a sociedade conservadora que vingava nos Estados Unidos pós 2ª Guerra Mundial, prontos como líderes mundiais e em constante conflito com os comunistas.

Os produtores do filme não quiseram correr risco. Pediram que o roteirista George Axlrod transformasse o agridoce e melancólico livro de Capote em uma comédia romântica, com personagens mais palatáveis para aquela sociedade. A contragosto, a solução foi modificar os personagens. “Audrey tem um glamour que preenche muito o conteúdo não dito do filme. E nos repressivos anos 50, uma era de garotas boas fazendo o bem, esse pouco foi um longo caminho”, diz Wasson.

Holly não é mais uma garota de programa, pelo menos não explicitamente. O filme apenas sugere que ela é “ajudada” por milionários. Edwards a transformou numa “kook”, a palavra escolhida pelo estúdio para definir Holly – algo como excêntrica. No edifício de tijolos marrons, ela vai encontrar Paul, um escritor de segunda linha que é mantido por uma socialite.

Wasson detalha todo o desenvolvimento para deixar “Bonequinha” aceitável para os órgãos fiscalizadores da época. Recolhe bastidores para mostrar como os produtores chegaram a Audrey, uma mulher com físico oposto ao imaginado para Holly, que ainda não havia estourado em Hollywood. Ele vai até meados dos anos 50, quando Billy Wilder se preparava para filmar “O Pecado Mora ao Lado” – o filme que consagrou Marilyn e seu esvoaçante vestido branco. A briga para transformar uma peça da Broadway sobre adultério numa comédia de comportamento antecipou o que Edwards iria enfrentar com “Bonequinha”.
Mais do que uma comédia romântica, “Bonequinha” fez uma leitura premonitória da mulher moderna. Holly não tem medo da cidade grande, ela que é uma garota do sul, que casou adolescente por conveniência e segurança. Em Nova York, é independente e não dá satisfação a ninguém. Mais do que isso, ela tinha estilo.

Audrey bancou o estilista francês Hubert de Givenchey, então um novato na alta costura, para desenhar os figurinos do filme, contra a vontade da estrela de Hollywood Edith Head, talvez a maior figurinista do cinema, preferida do estúdio.

Graças a ela, o preto básico de Chanel se tornou um ícone nas mãos de Givenchy e no corpo de Audrey. Cabe a ela, em uma cena de abertura memorável, a elevação de um vestido relativamente simples a um grau de elegância padrão, a aposta certa para qualquer ocasião.

Wasson explica essa mudança no comportamento da mulher, como Audrey e sua Holly fizeram emergir uma mulher moderna, antenada, que escolhe suas roupas  e decide viver sem interferências. Não é pouca coisa.

Tinha mais. A música “Moon River” também causou estrago na indústria fonográfica. A composição de Henry Mancini fez com que as trilhas sonoras ganhassem status na produção de filmes e na divulgação. Foi outro ponto de virada para Hollywood.

“Quinta Avenida” é um passeio pela obra. Wasson recolhe trechos do roteiro não utilizados do filme, cartas de Audrey a Givenchy e Mancini, reproduz o convite para a estreia do filme em Nova York, que simula a caligrafia de Holly, traz fotos dos bastidores da produção e das filmagens e até um mapa de Manhattan, com indicação de locações, bares e restaurantes onde Capote e equipe de filmagem se reuniam.

Classificado pela revista “The New Yorker” como um historiador social, Wasson escreveu uma crônica sobre a criação de uma obra. Neste caso, um ícone da moda e do comportamento.

* Escrito para a revista "Correio Moda"

20/10/11

Novas folhas

Não sou um leitor de poesia, sou leitor de poetas. Eliot, Fernando Pessoa, Drummond. E Walt Whitman, talvez o meu preferido.

Conheci Whitman por meio de uma tradução lançada pela Brasiliense lá em meados dos 80. Era um apanhado de "Folhas de relva", mas bem editado - "Folhas das folhas de relva". Ainda tenho o volume, todo anotado e gasto - infelizmente, não está comigo agora, gostaria de dar uma folheada, observar as marcações, tentar lembrar as motivações.

Comprei uma edição americana, acho que da Penguin, algumas traduções portuguesas de poemas, até chegar à tradução completa de Rodrigo Garcia Lopes, lançada em 2008. Era a versão para a primeira edição de Whitman.

"Folhas de relva" foi uma espécie de work in progress, que só terminou quando o poeta morreu. A cada intervenção, uma edição era lançada. E foram sete.

Acabou de sair a última versão do livro, "Folhas de relva - Edição do leito de morte", o que seria o livro definitivo para Whitman.

Whitman cantava uma espécie de liberdade que o mundo de sua época ainda pouco conhecia - metade final do século 19. Inspirou beats e Bob Dylan. Sua verve romântica, às vezes exagerada, era universal. Quando sua poesia surgia ingênua, ele prosseguia até revelar uma profundidade rara, algo melancólica.

Sua leitura é instintiva, selvagem, sem devaneios intelectuais. Foi poeta como poucos.

"Canção da estrada aberta"

"A pé e de coração aceso e levo pego a estrada aberta,
Saudável, livre, eis o mundo que encaro,
O longo caminho de terra que encaro e me leva para onde eu quiser.

Daqui para frente não peço boa sorte, eu mesmo sou a boa sorte,
Daqui para frente não me queixo, não protelo, não preciso de nada,
Acabaram-se as dores de travesseiro, as bibliotecas, as querelas críticas,
Forte e contente atravesso a estrada aberta.

A terra, ela me basta,
Não quero constelação alguma por perto,
Sei que elas estão muito bem onde estão,
Sei que elas bastam para aqueles que a elas pertencem.

(Ainda aqui carrego meus doces velhos fardos,
Os carrego, homens e mulheres, os carrego comigo para onde quer que eu vá,
Juro que é impossível me livrar deles,
Estou repleto deles e irei deixá-los repletos em troca)."

14/10/11

Leon Cakoff, 1948-2011

Algumas pessoas passam pelas nossas vidas sem saber a importância que elas deixaram. Algumas então nunca conhecemos pessoalmente, são quase como entidades, pessoas que existem mas que por motivos diversos são inalcançáveis.

Não sei se Leon Cakoff tinha essa noção, do que ele fez por muita gente que hoje gosta de cinema - como eu. O criador da Mostra Internacional de São Paulo morreu hoje, às vésperas da 35ª edição. Seu legado já é mais do que indiscutível, para a cidade, que se tornou mais aberta a culturas antes impenetráveis, para fanáticos pela arte e para os iniciantes.

Cakoff me abriu os olhos para um cinema que provoca, que desafia. Foram dezenas de filmes, que mostraram possibilidades. Poderia citar vários que me marcaram, que permanecem comigo, outros que valeram alguns xingamentos na saída do cinema, alguns que fizeram valer o ingresso. Não. Vou citar apenas um momento.

Em 2008, a Mostra trouxe Wim Wenders para promover o filme "Palermo Shooting". Eu cobria o festival para "O Tempo", em parceria com a editora de cultura. Então, a organização ofereceu uma entrevista com o cineasta.

Então, de um dia para outro, eu me vi sentado diante do diretor de "Asas do desejo". Não era pouca coisa. Era um fã que precisava trabalhar sentado em frente ao ídolo. O filme me marcou de diversas formas e se tornou uma espécie de bússola, tal qual "Lavoura arcaica", o livro.

Só por esse momento eu já deveria agradecer a Cakoff. Mas devo a ele muito mais. Este momento funciona como uma pequena e tímida tentativa de dizer o quanto sou grato a ele.
***
Nos links, a saga da entrevista com Wim Wenders:
Que pergunta fazer?
Terça-feira, 17h
Uma conversa com Wim Wenders
"O rock ainda salva a minha vida"

04/10/11

Terra devastada

Não me lembro como cheguei a Emmanuel Carrère e ao seu "Outras vidas que não a minha". Mas lembro exatamente do dia e da livraria onde comprei meu exemplar. Num sábado à tarde, no dia do primeiro show do U2 no Brasil, em abril, entrei na Fnac do shopping Morumbi, que fica em frente ao hotel onde estava hospedado. Já havia passado pela Cultura, no shopping vizinho, mas não encontrara.

Na Fnac, achei o livro, única cópia. Ficara entusiasmado com o que lera sobre o escrito francês, que utiliza fatos reais para escrever romances. Não é uma reportagem nem o que Capote chamava de não ficção. É algo novo, diferente, que busca mais do que inspiração na vida real.

O livro ficou adormecido na prateleira por um tempo até chegar à cabeceira. Peguei numa noite, após terminar "Terramarear", sem muita demora na escolha. Comecei a ler e só consegui parar três horas depois.

Começa com um casal no Sri Lanka, na véspera do tsunami de 2004, onde passava férias. Carrère assume a posição de narrador, como o marido desse primeiro casal, para contar como a onda gigante mudou a vida de pessoas que estavam próximas a eles. Um casal de amigos perde a filha, há o terror de encontrar o corpo, em meio à destruição e a situações idênticas vividas por outros.

O início é arrebatador, de uma potência raramente encontrada. Os dramas se desenvolvem como atos. A trama vai desembocar na amizade de uma mulher com um juiz, ambos com câncer, ela também magistrada. O paralelo que Carrère traça passa pela superação de tragédias: o casal que perde a filha e o pai e três filhas que perdem a mãe.

No meio de tudo isso, ele abre até uma discussão sobre direitos do consumidor, parte da vida dos juízes. O câncer é personagem central da metade para frente, com descrições torturantes, nada explícitas, mas que revelam a dor de quem vive a doença - mais emocional do que física. Alguns trechos são angustiantes, mas Carrère consegue superar e levar o leitor ao próximo ponto, sem que a angústia domine a leitura. Essa condução é algo único.

O limite entre realidade e ficção se perde com a prosa de Carrère, que nos faz pensar no que é ficção ou não. No fundo, não importa saber.

Foi das leituras mais potentes.

Como este trecho de "Wasteland", a terra devastada do título, obra-prima de T.S. Eliot:

"There is shadow under this red rock

(Come in under the shadow of this red rock),

And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;

I will show you fear in a handful of dust."

Trechos de "Outras vidas que não a minha"
Uma questão de linguagem não me saía da cabeça. Detesto que usem a palavra "mamãe" a não ser no vocativo e num âmbito privado: que mesmo com sessenta anos alguém se dirija dessa forma à sua mãe, ótimo, mas que passada a escola maternal digam "a mamãe de fulano" ou, como Ségolène Royal, "as mamães", isso me causa repugnância, e vislumbro nessa repugnância uma coisa diferente do reflexo de classe que me provoca urticária quando alguém fala um francês arrevesado na minha frente. Entretanto, mesmo para mim, aquela que ia morrer não era a mãe de Amélie, Clara e Diane, mas sua mamãe, e esta palavra que não aprecio, esta palavra que há muito tempo me deixa triste, eu não diria que não me deixasse triste, mas eu tinha vontade de pronunciá-la. Tinha vontade de dizer, baixinho: mamãe, e de chorar e ser, não consolado, mas embalado, apenas embalado, e adormecer assim.
***
Eu disse a Hélene: sabe, aconteceu uma coisa. Se me fosse dado a saber, não muitos meses atrás, que eu tinha um câncer, que iam morrer em breve, e eu me fizesse a mesma pergunta que Juliette, será que minha vida foi bem-sucedida?, eu seria incapaz de responder como ela. Teria dito que não, minha vida não fora bem-sucedida. Teria dito que tinha feito coisas bem-sucedidas, tivera dois filhos bonitos e que estão vivos, escrevera três ou quatro livros nos quais o que eu era tomou forma. Fiz o que pude, com meus recursos e meus bloqueios, lutei para fazê-lo, é um balanço positivo. Mas o essencial, que é o amor, me terá faltado. Fui amado, sim, mas não soube amar - ou não consegui, é a mesma coisa. Ninguém pôde repousar confiantemente no meu amor e não repousarei, no fim, no amor de ninguém. Isso era o que eu teria dito no anúncio da minha morte, antes da onda. E então, depois da onda, eu a escolhi, nós nos escolhemos e não é mais a mesma coisa. Você está aqui, perto de mim, e se eu tivesse que morrer amanhã poderia dizer como Juliette que minha vida valeu a pena.
***
Essa depressão de fato alarmante, Pierre Cazenave analisa-a como o sobressalto desperado desse ser clandestino que, no fundo de você, nunca teve direito à existência e que percebe subitamente que seus dias estão contados. Para quem sempre teve a sensação de existir, o anúncio da morte é triste, cruel, injusto, mas é possível integrá-lo na ordem das coisas. Mas e para quem, no âmago de si, sempre teve a impressão de não existir de verdade? De não ter vivido? A este, o psicanalista propõe transformar a doença e inclusive a aproximação da morte numa última chance de existir de verdade. Ele cita esta frase misteriosa, dilacerante, de Céline: "Talvez seja isto que procuremos ao longo da vida, nada além disto, o maior sofrimento possível para nos tornarmos nós mesmos antes de morrer".
***
Assim que se instalou na clínica protestante, Juliette telefonou para Étienne. Ele se lembra das palavras dela: venha, venha imediatamente, estou com medo. E, quando ele entrou no quarto, meia hora mais tarde: é pior do que medo, é pavor.
O que lhe dá pavor?
Com um gesto vago, ela apontou para a sonda que a ligava à bolsa de perfusão, sobre seu suporte: isso. Tudo isso. Continuar doente. Falta de ar. Morrer sufocada.

02/10/11

Um festival de ilusões

Não entendo a celeuma causada pela escalação do Rock in Rio 2011. O rock nunca foi exclusivo do festival, desde sua primeira edição.

Vejamos.

Em 1985, além de AC/DC, Iron Maiden, Ozzy, um decadente Rod Stewart e de uma nova geração brasileira, havia nomes como Pepeu Gomes, Elba Ramalho, Ivan Lins, que nem de perto se passam como rock.

Já em 1991, a coisa ficou mais diversificada. Então, subiram ao palco gente como Faith No More, Sepultura, Judas Priest, ao lado de coisas como Debbie Gibson, A-Ha, New Kids on the Block, Information Society e Lisa Stanfield.

A terceira edição também manteve o ecletismo. R.E.M., Oasis, Foo Fighters, Iron Maiden e IRA! pisaram no mesmo palco que Sandy & Júnior, Britney Spears, Carlinhos Brown e até de banda gospel.

Então, ficar criticando a escalação de 2011 é esquecer o perfil do festival. Desde sua origem, o rock está no nome apenas por ser cool, por tentar prover uma identidade. Há noites em que o rock se destaca, mas no conjunto, o festival nunca foi do gênero.

Soma-se ao ecletismo o fato de que o festival tem uma ligação uterina com a Globo, e então a caretice acaba por se tornar mandatória - claro, o nome Rio no título mobiliza a emissora para fazer qualquer coisa se transformar em linda, maravilhosa e transcendente.

Este ano, a postura apenas se multiplicou. O festival é uma beleza de organização. Tudo funciona bem. Apresentadores e jornalistas induzem respostas na pergunta, para artistas prestes a subir no palco ou logo depois da apresentação, para VIPs na área especial, até para anônimos. Tratam o Rock in Rio como único no mundo, um mundo que vive mais de 500 festivais de verão.

Quer ser mais tupiniquim? Ora, o Planeta Terra, com escalação muito mais inteligente e antenada, é organizado, sustentável e tem parque de diversão.

O Rock in Rio é um festival careta, com escalação idem - com raras exceções, como Stevie Wonder neste ano. Transformou-se num evento que poderia muito bem servir como locação para a novela das 19h. Todos bem engomadinhos, sem críticas aos shows, à fila no banheiro e nas lanchonetes, ao trânsito e ao arrastão.

É a velha e irritante mania de imaginar que o que é feito no Brasil é melhor do que no mundo. Então, é um tanto constrangedor ver a apresentadora do Multishow "perguntar" ao vocalista do Coldplay, instantes antes de entrar no palco, se ele achava que o festival era tudo de bom. Para um banda que frequenta boa parte dos maiores festivais europeus, a "pergunta" parece provinciana demais.

A reação dela, após a conversa nos bastidores, explica muito. Ela agradece, em público, ao canal, pela entrevista. Normalmente, seria o contrário. O veículo agradece ao bom jornalista pela entrevista exclusiva. No Brasil, é o inverso. Competente ou não, a jornalista só conseguiu fazer a entrevista porque era do Multishow/Globo. Nada mais caipira.

27/09/11

O que resta de um pesadelo

Então acordei chorando, no meio da noite. Claramente, assustado. Voltei logo a dormir, não sei se de exaustão causada pelo sonho ou de cansaço pelo dia anterior. Não me lembro do sonho, tenho uma vaga ideia do seu enredo, muito recorrente comigo, de final semelhante a outros. Por algum motivo, fujo. A perseguição é longa, altera períodos de tensão e outros em que ajo como se nada estivesse acontecendo, até voltar à perseguição. Termino, invariavelmente, sem saída. Numa cama, ou numa janela, como desta vez. Sempre, sempre, com os braços esticados, pedindo ajuda, a quem me ataca ou a quem surge na janela - desta vez, um rosto amigável, minha mãe, acho. Em nenhuma vez recebi a ajuda. Sempre acordo. Pois é o momento mais tenso, o momento em que vou ser atacado. Tenho a sensação de que grito, hoje tive a certeza de que choro também. Reação ao ataque e à solidão da cena, sem ninguém por perto, apenas meu braço esticado, pedindo algum tipo de ajuda que nunca vem.

26/09/11

Circo voador

Pode-se até falar que o Cirque du Soleil se tornou espetáculo mais propício a Las Vegas do que ao circo de lona. Talvez seja verdade - e é. Assistir à companhia canadense nem de longe lembra a experiência de ir ao circo. Vai-se a um espetáculo de grandes proporções, organizado, pontual como uma peça de teatro, com um shopping na praça externa.

Mas basta o show começar que o encantamento domina. Assisti a "Varekai" (em qualquer lugar), que reconta o mito de Ícaro, o espetáculo que o grupo apresenta no Brasil. Embasbacante, se é que o adjetivo existe - mesmo assim, tenho minhas dúvidas de que é suficiente para descrevê-lo.

As cores parecem que vão saltar dos figurinos, de tão vivas. O cenário não se revela por completo, vamos descobrindo seus meandros ao longo da apresentação.

O show intercala números de acrobacias, para contar a história, com pequenas esquetes, como se fossem intervalos, o espaço dos palhaços.

A abertura é genial. Um palhaço capta barulhos para transformar em cantos de pássaros. Uma poesia que se descortina em humor.

As acrobacias, boa parte delas desenvolvidas no ar, são exuberantes. Corpos que giram em torno de si, equilíbrio em barras, saltos mortais que acabam numa lona, tudo é muito impressionante, tenso em alguns momentos - sim, tombos e entradas falsas tomaram lugar aqui e ali, para serem devidamente aplaudidos.

Show que merece ser assistido, pois talvez único no mundo.

21/09/11

O fim como foi cantado

O R.E.M. anunciou seu fim hoje.

A banda é parte da minha história, me acompanha nos últimos 25 anos. Tenho todos os seus discos em CD, tive todos os seus álbuns em vinil até o momento em que troquei de plataforma. Ouvi demais "Document", "Green" e "Murmur". Muito mesmo.

"Automatic for the people" me abriu horizontes. "Out of time" foi disco de turma, dividido em praias e avenidas.

Me arrependi amargamente de não ter visto seu show no Rock in Rio 2001. Mas tenho certeza de que fui recompensado com o show que presenciei em 2008 - um dos melhores a que assisti em toda a minha vida. Nunca vi uma reação como a que aconteceu quando "It's the end of the world as we know it (and I feel fine)" começou.


Eis o que Michael Stipe disse no comunicado oficial: "A wise man once said - 'the skill in attending a party is knowing when it's time to leave.' We built something extraordinary together. We did this thing. And now we're going to walk away from it".

Vai fazer falta.

15/09/11

Uma Buenos Aires longe das sacolas

Li nesta semana, numa reportagem da "Folha", que Buenos Aires já não é tão mais aquele paraíso de compras. A inflação começa a minar os preços. Até aí tudo bem, acontece aqui, acontece lá, a economia sobe e desce.

O que me chamou a atenção foi uma pesquisa citada no texto sobre o turismo na capital argentina. Buenos Aires ainda é um foco de brasileiros. Mas entre brasileiros e europeus, por exemplo, há um abismo violento quando a pesquisa investiga os hábitos.

O brasileiro, por exemplo, gasta mais do que o europeu por dia, em média. Muito mais, coisa de cinco vezes mais. O que leva esse gasto para o alto é que o brasileiro, ao contrário do europeu, fica muito menos tempo na cidade - em média, cinco dias, enquanto o turista europeu fica 20, 25 dias.

Então, generalizando, o brasileiro vai para Buenos Aires para fazer compra, enquanto o europeu vai para conhecer a cidade.

Triste, pois Buenos Aires é uma cidade tão rica, tão cheia de meandros, que é quase vergonhoso passar cinco dias no entorno da Florida e do Patio Bullrich.

Perde-se tanta sutileza.

Como o descanso dos portenhos na praça San Martín.
Ou a música no metrô.
Ou uma conversa num canto do El Claustro, misto de igreja e restaurante.
Para enxergar tudo isso, é preciso escapar. Esquecer sacolas. Há tanta coisa por lá que guias de viagem e de compras não mencionam que só o tempo e a disposição permitem conhecer.

11/09/11

A origem

Um crítico da "Folha", não me lembro qual, escreveu que "Planeta dos macacos: A origem" é um filme B com classe, algo assim, recheado de bons efeitos especiais, coisa que um filme B nunca teria.

Nunca ouvi falar do diretor, Rupert Wyatt, talvez uma característica deste século, em que diretores se multiplicam e não há mais identidade como antes. E seu "Planeta dos macacos" tem seu encanto, ao contar a história do que aconteceu para que a Terra se transformasse no planeta devastado que Charlton Heston encontra no primeiro filme da série.

Então, nos Estados Unidos de hoje, um cientista realiza testes com chimpanzés na busca pela cura do Mal de Alzheimer. A droga, por algum motivo, turbina a inteligência dos macacos.

O cientista acaba com um filhote em casa, batizado de Cesar, e vai conviver com o bicho até a idade adulta. Após uma agressão, Cesar vai para uma espécie de abrigo de macacos, uma alusão quase simplória de uma prisão. Ali, arquiteta-se a vingança contra os humanos, a raiz do que se assistiu no "Planeta" original.
Bem engendrado, o filme não perde o pique e consegue fechar todas as pontas do roteiro. Há derrapadas, que não comprometem - e que talvez justifiquem a caracterização como filme B. Por exemplo, como o cientista conseguiu esconder um chimpanzé em casa sem que o vizinho percebesse por cinco anos? Ou esconder da namorada os testes com drogas? Difícil comprar. A metáfora do abrigo como prisão também soa forçada, mas responde à necessidade da história, quando vista em perspectiva - há que se pensar no primeiro da série obrigatoriamente.

Os dramas que rodam na periferia do tema principal servem apenas para emoldurar, sem comprometer, até porque recheados de clichês - o dono da empresa de pesquisa ambicioso, a relação fraterna e chorosa entre dono e bicho, por exemplo.

No fim, sai-se do cinema com a sensação de ter passado duas horas com um raro entretenimento. Filme B ou não, este "Planeta dos macacos" é digno de explicar o primeiro da série, talvez o único que valha alguma revisão. E nesta selva de filmes ruins que chegam aos cinemas, é até um certo alívio encontrar algo como este.

09/09/11

Viajar não é preciso

Escrever sobre viajar não é das coisas mais fáceis. Não precisa muito para cair em guia de turismo ou na arrogância de quem pode e mostra que viaja. Poucos conseguem escapar pela brecha entre os dois extremos. Caso de Paul Theroux. Ou Elias Canetti.

Ruy Castro e Heloisa Seixas se juntaram a esse clube com "Terramarear", compilação de textos sobre suas viagens escritas desde os anos 80. O livro se pretende um relato de turistas culturais, daqueles que viajam procurando lugares pode onde passaram escritores, músicos e cenas de filmes.

Buscam, ainda, fugir do turismo óbvio - nem sempre conseguem, mas qual o problema em visitar o que todos visitam também? Essa coisa de querer ser diferente é um tanto perniciosa.

Então, passeamos pela Roma de Fellini, a Veneza de Woody Allen, vamos à loja onde Stanley Kubrick comprou as máscaras para o filme "De olhos bem abertos", conhecemos a Cuba de Ernest Hemingway, entre outros destinos.

Os textos de Ruy Castro são melhores do que os de sua mulher. Carregam um bom humor que os faz leves. Heloisa Seixas por vezes descamba para o deslumbramento, mas consegue empregar um olhar curioso, como na viagem a Moscou.

A edição poderia ser mais cuidadosa - e olha que é da Companhia das Letras. Por exemplo, só sabemos o ano em que cada texto foi escrito. Mas não sabemos o motivo nem onde foi publicado. Há textos inéditos, mas tampouco há essa indicação. Fora o deslize, o leitor ganha uma leitura saborosa, daquelas que terminam em duas noites. Ao final, tem-se a sensação de que o mundo ficou menos óbvio.

01/09/11

Intervalo

O blog anda meio parado, por motivos que em breve, assim espero, estarão dissipados. Enquanto isso, só para não ficar muito esvaziado, alguns comentários sobre o que estou lendo, vendo e ouvindo.

"O clube do suicídio", livro de contos e novelas de Robert Louis Stevenson, é imperdível. Além de trazer uma nova tradução para o clássico "O estranho caso do dr. Jekyll e mr. Hyde", tem a novela que dá nome ao livro, obra-prima do suspense e, por que não, do sarcasmo. Outro conto que merece a citação é "O demônio da garrafa". O livro, editado pela CosacNaify, tem ensaios de Henry James e Nabokov, além de um prefácio primoroso de Davi Arrigucci Jr.

Sem saber o motivo de tanto falatório, baixei "The king is dead", do The Decemberists, e confesso que me surpreendi, pois 90% do que eu baixo não resiste a uma segunda audição e vai para o lixo. Um folk bacana, com pitadas de rock, nada choroso nem muito festivo, mas sim um punhado de boas canções. Vale a pena.

Dia desses, peguei aqui da prateleira o CD "Graceland", do Paul Simon, um marco dos anos 80, em que ele revisita a música africana e dá nova cara. Pensei que fosse soar datado, mas me enganei. Canções como a faixa título, "Diamonds on the soles of her shoes", "Homeless" e "I know what I know" ainda surgem inventivas. Uma ou outra ficou pelo caminho, caso de "You can call me Al", que, apesar de animada, nos transporta para uma festa de 1986 com tudo o que havia de ruim na época. Tirando isso, o álbum é memorável, e continua assim. Me deu vontade de ouvir seu último CD, "So beatiful or sou what", bem elegiado pela imprensa gringa.

Não vejo nada de interessante nos cinemas. Tudo muito fraco, além do fato de que no interior não chegam, por exemplo, filmes como "Um conto chinês" e "Medianeras - Buenos Aires na era do amor virtual", duas produções argentinas, hoje e já há muito tempo, o melhor cinema da América Latina.

Tenho vontade de ver "O planeta dos macacos: A origem", mas só - e acho que vou assistir.

Restam os seriados. Inácio Araújo escreveu em sua coluna na "Folha" que hoje são o que de melhor a TV exibe. Ou então colar no TCM, que promove uma viagem ao passado das mais interessantes - não há nada mais prazeroso do que, numa madrugada adentro, deparar-se com "Stand by me" e um River Phoenix jovem.